Silvestre Gorgulho

Silvestre Gorgulho

"Na praça de Hiroshima, onde caiu a bomba Atômica, foi construído um Parque onde tremula a bandeira branca da Paz"

Marcos Terena

Março de 1997

Silvestre Gorgulho

O índio, piloto e líder Marcos Terena abre hoje a Janela da Corte. Mas voltemos no tempo. Em 1990, o jornalista Zózimo Barroso do Amaral deu em sua coluna do Jornal do Brasil uma nota, com o título "Procura-se" dizendo que o líder indígena Marcos Terena acabara de ser demitido da Funai, onde era piloto - mesmo tendo entrado em avião só como passageiro e morrendo de medo. Foi na resposta de Marcos Terena ao JB, que se conheceu o valor, a grandeza, a altivez e a dignidade de um índio: "Sou um dos 240 mil índios brasileiros e um dos seus interlocutores junto ao homem branco. Quando ainda tinha nove anos, fui levado a conhecer o mundo. Era preciso ler, escrever e falar o português. Um dia a professora me pôs de castigo, não sabia por quê, mas obedeci. Fiquei de frente para o quadro negro, de costas para a sala. Quando meus colegas entraram, morreram de rir. Não sabia o motivo, mas sentia-se orgulhoso por fazê-los rir. Eles riam porque descobriram meu segredo: meu sapato não tinha sola, apenas um buraco, amarrado por arame. Naquele momento, sem querer, acabei descobrindo o segredo do homem civilizado: suas crianças não eram apenas crianças. Apenas uma palavra as separava das outras crianças: pobreza." E Terena continua sua carta: "Um dia me chamaram de "japonês". Decidi adotar essa identidade. E fiz isso por 14 anos." Foi passando por japonês que Marcos Terena conseguiu estudar, entrar para a FAB, aprender a pilotar. Veio para Brasília. Deixou de ser japonês para voltar a ser índio. Ai descobriu que era "tutelado". Mais: como tinha estudo, começou a explicar a lei para seus companheiros de selva. "Expliquei - diz ele - e fui acorrentado. Pelos índios, como irmãos. Pela Funai, como subversivo da ordem e dos costumes". Veio o drama: continuar sendo branco-japonês e exercer sua profissão de piloto, ou voltar a ser índio, mesmo sendo subversivo. Marcos Terena era o próprio filho pródigo. Sabia ler, escrever, analisar o mundo, entender outras línguas. Mas, como índio, recebeu um castigo dos tutores da Funai: não podia exercer sua profissão, pilotar. Só depois de muita luta, recebeu seu brevê do Ministério da Aeronáutica. A carta de Terena ao JB continua. É linda. Uma lição. Quando publicada, mereceu uma crônica especial da Acadêmica Rachel de Queiroz. E Terena, ao concluir sua carta, lembrou ao jornalista: "Não guardo rancores pela nota. Foi mais uma oportunidade de fazer valer a nossa voz como índio. Gostaria apenas que o jornalista inteirasse dessas informações todas e soubesse de minha vontade em tê-lo como amigo". Respeitado por índios e brancos, sulmatogrossense de Taunay, Marcos Terena, 43 anos, maior líder do Movimento Indigenista Brasileiro - é um exemplo. Seu nome, sua obra e sua luta se confundem com a própria natureza: rica, dadivosa, exuberante, amiga e fiel.

1 - Duas coisas que mais o incomodam em Brasília.
A construção daquele prédio abandonado na beira do Lago Paranoá e o trânsito, sobretudo a falta de estacionamentos.

2 - O clone é uma realidade da engenharia genética. Dê o nome de cinco brasileiros que, pela importância, mereceriam ser copiados em série.
Deus criou o homem e lhe deu poder sobre tudo e sobre todos, inclusive a capacidade de reproduzir-se de maneira febril e gostosa. Por que substituí-lo por uma máquina reprodutora? Em todo caso, o nome de cinco brasileiros que mereceriam reviver: Ulysses Guimarães na política; Pelé no esporte; Elis Regina na música; Maitê Proença por motivos óbvios; e Chico Buarque pela inteligência.

3 - Cinco homens brancos que souberam ou sabem valorizar a cultura indigenista?
O Marechal Cândido Rondon, o antropólogo Darcy Ribeiro, o escritor Antônio Callado, o cantor Milton Nascimento e o sertanista Orlando Villas Boas.

4 - Quais os cinco índios mais importantes na história brasileira?
Cacique Cunhambebe, da Conferência dos Tamoios; Cacique Mário Juruna, dos Xavantes; Cacique Raoni, dos Mentutire, Cacique e vereador Kretan, dos Kaingangue; e Cacique Marcolino Lili, dos Terena.

5 - Você foi candidato a deputado por duas vezes. A política é uma arma para se fazer justiça ou um caminho mais fácil para encobrir injustiças?
O poder legislativo é um pêndulo necessário entre os três poderes. O ideal seria assegurar algumas cadeiras no Senado e na Câmara aos diversos setores sociais, como uma verdadeira "assembléia do povo brasileiro" e não somente aos sindicatos organizados ou aos cartéis dos ricos.

6 - Nas suas contas, qual a população indígena hoje no Brasil?
Já fomos mais de 3 milhões, com 900 povos. Hoje estamos em fase de reorganização e crescimento já beirando os 330 mil e cerca de 200 povos em todo o Brasil, menos no Piauí e Rio Grande do Norte.

7 - As missões religiosas que atuam nas áreas indígenas são boas ou ruins?
As missões foram criadas para gerenciar os mandamentos bíblicos e cristãos, como humildade e respeito mútuo, mas no caso indígena cometeram um grande pecado. Consideraram os índios como pecadores por não usarem roupas e não terem a mesma fé dos brancos. Isso foi ruim.

8 - Os índios já serviram como marketing para os portugueses (motivo de financiamento de novas expedições, pois o mundo católico tinha que salvar almas) já serviram como marketing para cantores de rock, para OnGs, para candidatos e para Governos. Índio é um bom marketing?
Índio é uma marca muito boa, porque índio é terra, é ecologia, é bem viver. Isso não foi usado só por artistas da mídia, mas por fabricantes de jóias, de produtos de beleza, de comida, de medicamentos alternativos como os "encantados" da Amazônia. Geralmente isso não traz nenhum retorno para nossa causa, basta ver o descaso como a Funai é tratada dentro do Governo e, com ela, os índios.

9 - Quem pensa grande e quem pensa pequeno na Funai?
Os índios pensam grande porque pensam nas suas terras, nos seus ecossistemas como fonte para o futuro do país. Em compensação os últimos presidentes da Funai...

10 - Juruna foi um líder eleito pelo homem branco. Valeu, para os índios, essa experiência parlamentar?
Não só valeu essa experiência parlamentar, como prá lamentar...Como Cacique foi o maior dos últimos tempos, mas não teve assessoria suficientemente hábil, para sua reeleição e para abrir portas para novos valores indígenas, até hoje...

11 - Qual o grande sonho da família indigenista para o ano 2.000?
A demarcação de todas as terras; eleger o maior número de vereadores e prefeitos índios; e transformar a Funai num Ministério do Índio, dirigido - lógico - por um índio.

12 - Religião: o homem branco não resolveu seus problemas com a religião que tem, mas acha que deve levar sua religião para os índios. O que acha disso?
Os índios crêem em Deus, o grande Criador. Muitas aldeias já aderiram aos costumes cristãos, tendo inclusive pastores e sacerdotes indígenas, que rezam e cantam na língua nativa. Acho que acima de tudo, Deus tem um plano para os índios. Ajudar o homem branco a conhecer o verdadeiro Deus, que fez os céus, a terra e a água, onde estão as fontes de sabedoria, de respeito às crianças e aos velhos, e dos alimentos e medicamentos do futuro. Lamentamos muito que em nome da Paz e do seu Deus, o homem branco continue matando.

13 - O que o índio espera da civilização, do homem branco de hoje?
Na verdade, agora estamos nos especializando em assuntos do branco. Só esperamos que a partir da demarcação de nossas terras, o goveno e a sociedade sejam educados para nos verem como irmãos e guardiães do patrimônio ecológico, respeitando-nos com a nossa maneira de ser, de vestir, de viver. Só, assim, construiremos um verdadeiro Brasil Indígena.

14 - Sua luta é provar que a diferença cultural é fator de discriminação quando deveria ser fator de união pela pluralidade étnica. Você consegue passar essa mensagem?
Eu tive oportunidade de nascer em uma pequena aldeia, de estudar mesmo com a discriminação e de chegar a fazer um curso na FAB. Tenho uma profissão rara, que é pilotar aviões. Outros índios não tiveram, cansados, desiludidos, mas tudo que fizemos - organizando os índios, debatendo com mestres da Antropologia, da CNBB, da OAB, envolvendo artistas e personalidades - tudo ajudou a semos melhor compreendidos. Ajudou a levar uma nova mensagem aos brasileiros: "Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!"

15 - Você será candidato novamente em 98?
Tenho esse sonho. Penso nessa possibilidade. Mas depende de muitos fatores complementares.

16 - Qual o pecado capital de Brasília?
É um pecado permitir que Brasília tenha lá fora a fama de uma cidade fria, sem esquina, que só produz escândalos, mordomias e conchavos políticos. Essa é uma injustiça e um o pecado maior contra Brasília.

silvestre@gorgulho.com