Brasília,
junho de 2003
O Português
Universal
Um acordo ortográfico para unir os
oito países que falam o Português
e
para resistir culturalmente ao processo de
comunicação globalizada
O Brasil precisa entender que
a globalização chegou para a
economia, para as finanças, para a
tecnologia, para o comércio, para a
informática e, sobretudo, para as comunicações.
No que diz respeito às comunicações
e à informática, a internet
está fazendo uma revolução
sem precedentes. E como fica a Língua
Portuguesa – escrita e falada –
neste contexto? Nesta Babel tecnológica
onde nem nos textos digitalizados e nem mesmo
no próprio endereço eletrônico
se pode usar acentos, cedilhas ou quaisquer
outros sinais gráficos? Bem, se os
oito países de Língua Portuguesa
já pensavam num Acordo Ortográfico
para sobrevivência do Português,
agora na era internáutica, esse acordo
tem que ser mais amplo e mais apropriado a
um novo tempo: a era da comunicação
eletrônica. Não para fazer os
jovens digitarem palavras completas em seus
textos, acabar com abreviações
e diminuir as gírias e os modismos
de uma linguagem funk. Também isso,
mas o caso não é esse. É
mais grave.
Um texto corretamente escrito
na internet, com todas as pontuações,
cedilhas e acentos circunflexos, graves, agudos,
ponto de exclamação, como mandam
os bons manuais de língua portuguesa,
do outro lado do mundo vão se tornar
símbolos irreconhecíveis. Assim,
para sair corretamente digitalizado nos computadores
do país de destino, os textos só
poderão ter as vogais e consoantes
sem nenhum outro símbolo gráfico.
Bem, esse é um dos desafios
para Carlos Alberto Ribeiro de Xavier, um
brasileiro que sabe tudo de meio ambiente,
de cultura, de educação e da
burocracia que rege os relacionamentos ortográficos
entre os oito países do mundo que falam
Português. Xavier é Assessor
Especial do Ministério da Educação.
Aliás, ocupa o mesmo cargo na gestão
dos três últimos Ministros da
Educação do Brasil e foi também
presidente da Comissão Provisória
Nacional que compunha a delegação
brasileira à Assembléia Geral
que criou o Instituto Internacional de Língua
Portuguesa (IILP), com sede em Cabo Verde.
Se a ortografia portuguesa é um desafio
para Xavier, ela deve ser encarada com muita
responsabilidade por Portugal e Brasil como
nações. O primeiro por ser Patria-Mãe
de todos e o segundo por ser a maior nação
do mundo onde se fala a Língua de Camões.
Portugal e Brasil devem pedir prioridade máxima
para o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa.
É fácil justificar:
o Acordo Ortográfico é o que,
realmente, está na origem de todo o
movimento dos oito povos que falam o Português.
No ano passado, em abril, foi realizada em
Praia, Cabo Verde, a I Assembléia Geral
do Instituto Internacional da Língua
Portuguesa, que contou com a participação
de delegações dos países
que fazem parte da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa (Portugal, Brasil,
Angola, Moçambique, São Tomé
e Príncipe, Guiné Bissau e Cabo
Verde, além do Timor Leste). Timor
se tornou membro permanente desde o final
de 2002.
Na realidade, o IILP já
fora criado em novembro de 1989, no Maranhão.
O Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa, vinha sendo negociado há
anos e finalmente foi firmado entre Brasil,
Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique,
Portugal e São Tomé e Príncipe.
A assinatura aconteceu em Lisboa em 1990 e
é fruto de longas conversações
conduzidas pela Academia Brasileira de Letras
e pela Academia das Ciências de Lisboa.
Vale lembrar que em 1911 foi
adotada em Portugal a primeira grande reforma
ortográfica, mas que não foi
extensiva ao Brasil. Desde então, a
existência de duas ortografias oficiais
da Língua Portuguesa - a lusitana e
a brasileira - tem sido prejudicial para a
unidade intercontinental do português
e para o seu prestígio no mundo.
Em 1931, 1943, 1945 outros acordos
e convenções foram assinados
sem que se produzissem os efeitos desejados.
Em 1971, no Brasil, e em 1973,
em Portugal, foram promulgadas leis que reduziram
substancialmente as divergências ortográficas
entre os dois países. Por isso, Carlos
Alberto Ribeiro de Xavier tem razão:
em tempo de globalização, o
Acordo Ortográfico é meta prioritária
para os países que falam o português,
é autêntica resistência
cultural.
Para se ter idéia da
importância do Português na vida
globalizada, ela é a sexta Língua
mais falada no mundo (depois do chinês,
hindi, espanhol, inglês e bengali),
a terceira mais falada no ocidente e a segunda
mais falada em Paris.
Como homenagem, gostaria de
lembrar dois outros brasileiros que enfrentaram
esta batalha: o incansável José
Aparecido de Oliveira, idealizador da CPLP,
e o filólogo Antônio Houaiss
que foi o grande articulador do Brasil para
chegarmos ao Acordo Ortográfico, e
hoje virou dicionário.