Brasília,
fevereiro de 2005
Dorothy Stang:
Bandidos calam mais uma voz da floresta
Dorothy Stang é assassinada no
Travessão do Santana,
município de Anapu - Pará
A notícia ecoou pelo
mundo a fora e ricocheteou dentro do governo
como uma bala não tão perdida
assim. Era uma morte anunciada. A missionária
americana Dorothy Stang, 73 anos, foi assassinada
a tiros, na manhã do dia 12 de fevereiro,
no Travessão do Santana, município
de Anapu, no Pará, 16 anos depois da
morte de Chico Mendes. O crime aconteceu quando
irmã Dorothy, como era conhecida, seguia
para o Projeto de Desenvolvimento Sustentado
(PDS) Esperança, junto com mais companheiros.
Neste mesmo sábado de 12 de fevereiro,
o "New York Times", publicava uma
reportagem do correspondente Larry Rohter,
criticando o governo Lula por ceder à
pressão dos madeireiros e liberar planos
de manejo suspensos pelo Ibama, dizendo que,
segundo grupos
ambientalistas, a decisão só
"incentivaria o desmando numa região
já conhecida como violenta". Era
uma morte anunciada no Pará, em Brasília
e em Nova York. "Dorothy colocou a sua
força, sua energia, sua espiritualidade
em serviço. O projeto dela não
era outro a não ser o serviço
de samaritana", disse Dom Tomás
Balduíno. “A irmã foi
uma semente e esta semente está multiplicada
neles". O corpo da irmã Dorothy
Stang foi sepultado na tarde de terça-feira
(15) em Anapu.
Dorothy Stang, o Anjo
da Floresta
“Dorothy Stang teve seu corpo
plantado e não sepultado. É
semente.”
Dorothy Stang era uma missionária
amada e odiada. Para os pobres e os oprimidos
ela era uma verdadeira santa. Para os madeireiros,
os grileiros de terra e os contrabandistas
de mogno ela era o satanás.
- Sou uma velha. Recebo muitas ameaças
de morte. Mas os pistoleiros não vão
ter coragem de matar uma velha como eu.
A missionária Dorothy
Stang subestimou a ação dos
madeireiros e a coragem dos pistoleiros. Há
mais de 30 anos, ela vivia na região
da Transamazônica, onde dedicou mais
da metade de sua vida a defender os direitos
de trabalhadores rurais contra os interesses
dos grileiros da região. Desde 1972,
ela trabalhava com as comunidades rurais pelo
direito à terra e por um desenvolvimento
sem destruição da floresta.
- Sei que eles querem me matar,
mas não vou fugir. Meu lugar é
aqui, ao lado dessas pessoas constantemente
humilhadas por gente que se considera poderosa.
Nos últimos 12 meses,
o Ministério Público enviou
10 representações sobre ameaças
contra irmã Dorothy para o Secretário
Especial de Defesa Social, Manoel Santino
Nascimento. Pedia medidas para garantir a
integridade física dos ameaçados.
Para Paulo Adário, coordenador da campanha
da Amazônia do Greenpeace, mesmo sabendo
dos riscos que ela corria, o governo do Pará
não tomou uma medida para garantir
sua segurança. "É inaceitável
que os marginais continuem imperando na Amazônia,
silenciando a voz daqueles que defendem a
preservação e os povos da floresta
contra os interesses de grileiros, madeireiros
e fazendeiros que operam ilegalmente na região"
alertou o militante do Greenpeace.
Mas, tranqüila como se
continuasse morando em sua terra natal, nos
Estados Unidos, a irmã Dorothy continuava
trabalhando intensamente na tentativa de minimizar
os conflitos fundiários dentro de um
verdadeiro barril de pólvora que é
a região de Anapu. Por buscar a justiça
social e por defender os mais fracos, ela
era sempre acusada pelos grileiros de instigar
a violência no município. As
ameaças de morte continuavam. Sua luta
pela preservação da Amazônia
não parava. Chegou a fazer denúncias
pela participação de policiais
civis e militares na expulsão de trabalhadores
a mando de fazendeiros e grileiros da região.
- Nosso povo anda angustiado com a demora
do Incra na marcação dos lotes.
Os fazendeiros e os madeireiros estão
com vários pistoleiros espalhados por
aí, que invadem lotes, apontam armas
e ameaçam matar o nosso povo, tudo
na frente de crianças.
Quando alguém chegava
para a missionária e pedia para ter
mais cautela, ela dizia que cumpria uma missão.
Não tinha medo de morrer.
- Prefiro falar de vida, não de morte.
Eu acredito em Deus e sei que Ele está
comigo. O povo sonha com uma vida melhor com
o Projeto de Desenvolvimento Social de Anapu.
Não tenho tempo de pensar em coisa
ruim. Mas, se eles me matarem, eu gostaria
de ser enterrada em Anapu, junto daquele povo
humilde. Para mim, nada substitui a alegria
de ver o nosso povo feliz.
A irmã Dorothy Stang não sabe
se todos os seus sonhos, um dia, serão
realizados. Mas, um de seus desejos, já
foi atendido: ser enterrada às margens
do rio Anapu, afluente do rio Xingu. Na Chácara
São Rafael, onde ela desenvolvia um
projeto de educação ambiental.
No seu túmulo foi plantada uma muda
de mogno, árvore símbolo do
comércio e da cobiça dos madeireiros
na Amazônia.
“O corpo de Dorothy é
semente. Não foi enterrado. Foi plantado
e dará muitas flores e frutos”,
discursou emocionada uma colega de Congressão.
Enquanto isso o senador Eduardo Suplicy surpreendia
a multidão, cantando em voz alta, a
canção de Bob Dylan “Blowying
in the Wind” [Soprando ao Vento].
Que os ventos soprem mais tolerância
e menos ganância por sobre terras brasileiras.
E anunciem um tempo de paz. Muita paz!